Como um empreiteiro reconstruiu o Galo


“Torcida mais chata do Brasil, se o problema era goleiro não é mais. Victor é do Galo.”
Com esse estilo direto e sem papas na língua, Alexandre Kalil presidiu o Galo por 6 anos. Em sua gestão conquistou títulos e resgatou o orgulho atleticano, colocando o alvinegro mineiro novamente como um protagonista nacional.”
Atual prefeito de Belo Horizonte, conseguiu a proeza de vencer uma eleição unindo atleticanos e cruzeirenses numa cidade polarizada pela rivalidade clubista. Foi eleito mesmo tendo entre suas pérolas afirmado “se eu puder destruir o Cruzeiro e estiver ao meu alcance, vou morrer completamente feliz.”
A gestão moderna fala sobre empresas descentralizadas, horizontais e abertas ao diálogo. Kalil é o oposto disso: “É do jeito que eu quero, pra quando eu quero e, de preferência, pra ontem”. Com esse mantra em mente ele desafiou o modelo de gestão que o Galo mantinha.
Kalil assumiu o Galo numa situação caótica. Na verdade caótica é um adjetivo até fraco. O Galo encontrava-se em frangalhos. O Presidente anterior renunciara alegando entre uma das razões ameaças de morte vindas das torcidas organizadas. O clube tinha mais de 1.000 cheques pré-datados e sem fundo distribuídos no mercado. Só no Serasa eram 180 protestos; não havia dinheiro para pagar as frutas oferecidas no café da manhã dos jogadores e os salários atrasados há 3 meses. Afinal de contas, como ele realizou essa redenção?
Sua decisão mais acertada foi montar um grupo de fiéis escudeiros, todos eles atleticanos e voluntários. “Remunerados pela paixão”, esse grupo de especialistas escolhidos a dedo tinha uma função única: escarafunchar toda a dívida do clube. Entender todas as reclamações trabalhistas, dívidas tributárias, credores, e empréstimos bancários.
Com esse mapeamento da dívida, o passo seguinte foi atuar no quitamento das dívidas trabalhistas. Como a lei brasileira é sempre pró trabalhador, essas dívidas travavam o dia a dia do clube. Não era incomum jogadores com valores a receber do Galo conseguirem a penhora de renda dos jogos. Até a taça do campeonato brasileiro de 1971 chegou a ser penhorada como garantia trabalhista. Pagar dívidas trabalhistas tornou-se prioridade zero.
Para as outras dívidas entrou em campo a origem turca de Kalil. Empreiteiro acostumado a negociar, chamou um a um seus credores e estabeleceu novos prazos. Concentrou essas dívidas no máximo possível com o BMG, onde congelou a dívida sem cobrança de juros por 2 anos até que o clube se estruturasse financeiramente. Depois de “arrumar a casa”, os pagamentos fixos voltaram a ser executados.
Enxugar, enxugar e enxugar. O choque de gestão continuou com a extinção de todos departamentos não relacionados com futebol. Foi bastante criticado por descontinuar os times de futsal, vôlei e basquete. Demitiu 200 funcionários e encerrou as atividades do departamento de marketing. Kalil assumiu os assuntos relacionados a área comercial do time, tais como cotas de TV e patrocínios. Repetidamente afirmou que “Marketing no futebol é bola na casinha” e que bastava investir em times competitivos que o torcedor consumiria tudo relacionado ao clube.
Valorizar a marca foi seu acerto como “gerente de marketing”. Na época a FIAT estampava sua marca por R$ 3 milhões anuais. Para o ano de 2009 Kalil queria R$ 9 milhões, e sem nenhuma proposta decidiu manter o clube sem patrocinador master no uniforme por um ano. Nesse período sem patrocínio, vieram várias empresas, mas para pagar valores baixos ou por determinados jogos. “Se você aceita isso, posteriormente, não consegue fazer um bom contrato.”
Essa história de valorizar a marca foi muito importante. Em 2008, primeiro ano de Kalil, a receita do Galo era de R$ 57 milhões. Em 2014 no último ano de mandato a receita foi de R$ 227 milhões.
Fez do Twitter seu meio de comunicação com os torcedores. Ali desabafou, divertiu e virou meme ao anunciar Anelka. Coleciona processos por usar a rede pra reclamar de árbitros. Chamou um de “vagabundo e ladrão”, outro de “bostinha azul” e por afirmar que só foi campeão da Libertadores porque “tiramos esses ratos de nossas vidas”.
Com o serviço bem feito nos bastidores, era hora de investir no futebol.
Trocou dívidas de outros clubes por jogadores. Assim chegou Tardelli numa troca por dívida antiga do Flamengo que ainda devia a compra do goleiro Bruno junto ao Galo. Investiu em Diego Souza que fora no ano anterior craque do brasileirão. Trouxe Luxemburgo, Ricardinho, Junior e outros medalhões. O resultado foi pífio. Chegou a liderar o Brasileirão em 2009, mas nos 2 anos seguintes lutou contra o rebaixamento.
Costurou um acordo para a gestão do Independência, num contrato de 20 anos.
Uma arena moderna recém reformada e que agradou o torcedor que sofreu por 3 anos jogando em Sete Lagoas enquanto o Mineirão era reformado para a Copa do Mundo. Foi na gestão Kalil que o Galo tornou-se o maior mandante do mundo, com 54 partidas invicto em casa. “Pedir que o jogo seja no Mineirão é achar que o presidente é retardado. Eu tomei a decisão certa, caiu no Horto, tá morto!”
E então veio o pulo do gato. Ou do Galo.
Numa sexta-feira Ronaldinho era jogador do Flamengo. Na segunda-feira estava treinando na cidade do Galo.
Numa ação de pura ousadia e oportunismo, Kalil conseguiu convencer Assis que o Galo era o melhor lugar para Ronaldinho Gaúcho retomar sua carreira após ser enxotado do Rio. O Galo precisava de R10 e ele precisava do Atlético.
“Eu cheguei à conclusão que eu vi dois jogadores com a camisa do Galo. Eu vi o Reinaldo e eu vi o Ronaldo.”
O resto da história todos nós conhecemos. Libertadores, Recopa, Copa do Brasil e campeonatos mineiros.
Texto: Tomaz Araújo / @Tomazaraujo13

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