Ao conduzir a reunião que aprovou o orçamento do Atlético para 2017, o então presidente do Conselho Deliberativo, sr. Rodolfo Gropen, afirmou que “o orçamento no Atlético não é peça de ficção” (http://globoesporte.globo.com/futebol/times/atletico-mg/noticia/2016/11/galo-tem-maior-orcamento-da-historia-aprovado-e-presidente-elogia-cuca.html). Infelizmente, o dirigente se equivocou em sua afirmação. Vejamos o motivo.
Inicialmente, precisamos compreender que orçamento é uma peça do planejamento na qual são descritas as origens e a aplicação dos recursos financeiros. Ou seja, é uma visão de futuro. Mas nenhuma das informações que compõe o planejamento, incluindo o orçamento, é “futurologia”, “achismo” ou “chute”. Existem técnicas que são aplicadas para que as realizações sejam bastante próximas do que foi planejado. O orçamento deve, então, ser uma peça de planejamento que vem acompanhada das iniciativas e planos de ação que farão com que os números deixem de ser futurologia e se tornem realidade.
Dois pontos precisam ser destacados ao estruturar o planejamento/orçamento:
- Não é uma ciência exata. Acontecem imprevistos que, muitas vezes, exigem revisão e ajustes. Justamente para isso, é comum que sejam feitas análises de cenários e que existam planejamentos para condições ideais (otimistas), condições inadequadas (pessimistas) e condições prováveis (realistas).
- Não se deve errar nem para mais, nem para menos. Resultados muito distintos do planejado precisam ser identificados e as causas compreendidas. Se algum fato extraordinário aconteceu, explica-se. Se não, é erro no processo de planejamento.
Dito isso, vamos aos números do Galo, considerando 2016, 2017 e 2018.
O orçamento previsto para 2016 foi de R$ 253 milhões e o resultado ao final do ano foi de R$ 316 milhões, variação de 25%. Três fatores influenciam o resultado: a venda de atletas, 31% acima do previsto; renegociação de cotas de TV, 29,5% acima; e patrocínios, 50% acima, possivelmente com a chegada da Dry World. Grandes variações, mas facilmente explicadas.
Justamente quando falado que o orçamento não era peça de ficção que os números ficam loucos. Se a variação entre o orçado e o realizado é “aceitável”, -5% (cinco por cento menor que o previsto), não se pode dizer o mesmo ao avaliar cada elemento de forma independente. Somente as receitas da TV, do shopping e dos clubes sociais foram próximas do previsto em orçamento. E não poderia ser diferente. Afinal, são receitas baseadas em contratos. Especialmente TV e shopping tem contratos de longo prazo e permitem orçamentos bastante fieis ao que será realizado ao fim do ano.
A venda de atletas teve variação negativa de 13% e os patrocínios aumentaram em 38%. Mas o que chama muita atenção é a relação com a torcida. Se o realizado em 2016 já havia sido abaixo do previsto, para 2017 foi uma verdadeira tragédia: 38% a menos em bilheteria e 40% a menos no Galo na Veia. De uma previsão de quase R$ 55 milhões, houve pouco mais de R$ 33 milhões em receitas.
Mas a tragédia só fica completa quando se vê a previsão para 2018. Mesmo com a diferença gigantesca em 2017, a previsão para 2018 foi 18% superior ao orçamento 2017 (R$ 65 milhões). Pior, a previsão 2018 é 95% (NOVENTA E CINCO POR CENTO) superior ao realizado em 2017. E as informações de 2018 mostram que a arrecadação com bilheteria será bastante inferior a 2017.
Nem precisaria de muito para compreender que a previsão estava superestimada. O orçamento previa mando em 38 jogos e arrecadação de R$ 35 milhões em bilheteria. Ou seja, R$ 921.052 por jogo. Considerando 20 mil pagantes em cada jogo no Independência (praticamente lotado), teríamos um ticket médio de R$ 46,02. Somente como referência, a promoção para primeira fase do campeonato mineiro oferecia ingressos para os cinco jogos da primeira fase por R$ 40. Já ali era possível identificar que não seria possível cumprir com o orçamento aprovado.
Como falado no início deste texto, o planejamento precisa vir acompanhado de planos de ação para fazer o previsto se transformar em realidade. E o que mais assusta é ver os erros de planejamento no elemento mais importante do Atlético: a relação com a torcida. Os equívocos estão repetidamente nas previsões de arrecadação com sócio torcedor e bilheteria. É uma clara demonstração de incapacidade de se relacionar com a torcida e de atrair público aos jogos.
Por fim, todos os números aqui apresentados estão disponíveis em portais na internet – com muita dificuldade para encontrar detalhes dos orçamentos aprovados – e no balanço patrimonial publicado pelo Atlético, que poderia, ainda, adotar mais clareza e transparência, disponibilizando, por exemplo, balancetes. Mais que isso, junto aos números vem a informação que os orçamentos e os balanços vem sendo aprovados pelo Conselho Deliberativo de forma unânime (https://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/atletico-mg/2017/11/06/noticia_atletico_mg,439863/conselho-deliberativo-do-atletico-aprova-orcamento-para-2018.shtml). Fica a dúvida: por quê?
Por: @DenilsonRocha / #FalaGalo
Por: @DenilsonRocha / #FalaGalo

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