Massa Atleticana,
O ano de 2018 não está sendo fácil. Como muitos já falaram antes – e foram bastante criticados –, a conta chegou. As condições fora do campo ficaram tão ruins que afetaram os resultados no campo. Pior, vimos muitos erros e não há perspectiva de melhora. Nesse contexto, o sr. Carlos Fabel, Diretor Financeiro do Atlético, concedeu entrevista à rádio 98FM e deixou a nós, torcedores, ainda mais preocupados. Em um momento tão grave, mais que as críticas, é hora de buscarmos soluções. Daí o texto vai ficar um pouco mais longo.
Inicialmente, o Atlético distanciou-se da torcida. As críticas e sugestões não são ouvidas. Parece que o torcedor não tem nada a acrescentar, que somos sem qualificação para oferecer o que quer que seja ao Clube. Da minha parte, além de quase 30 anos atuando em gestão empresarial (inclusive com formação em gestão de futebol), pude viver uma das maiores transformações de empresa na história quando a IBM chegou a prejuízo anual na casa dos bilhões de dólares (isso mesmo, bilhões de prejuízo em um único ano) e renovou-se para ser, até hoje, uma das maiores em seu negócio. Acho que tenho algum conhecimento para ajudar.
Precisamos ser bastante coerentes entre o que se fala e o que se faz. Uma das coisas que aprendi nestes longos anos foi que decisão é o que nós fazemos, não é o que falamos. Quase todos os dias alguém “decide” iniciar um regime na próxima segunda-feira, mas isso fica só no discurso. Assim parece ser o que encontramos no Galo. O discurso não está coerente com as práticas que temos observado e, principalmente, com os números que tem sido publicados nos balanços – e que usarei nesta avaliação.
Quando o Sr. Fabel afirma que estão fazendo o “dever de casa”, me questiono por que não fizeram antes? Afinal, como o próprio Diretor admitiu, está no Atlético há quase 10 anos. Se vale de lembrança, em dezembro de 2012 o Globoesporte.com já publicava matéria citando os “Homens fortes do Galo” (http://globoesporte.globo.com/futebol/times/atletico-mg/noticia/2012/12/homens-fortes-do-galo-saiba-quem-mudou-historia-do-atletico-mg.html) e ali já estavam o Sr. Fabel e o atual presidente. E o dever de casa não foi feito!
Por exemplo: O Sr. Diretor afirma que os clubes sociais são auto-sustentáveis. Infelizmente, os números publicados nos balanços não confirmam esta fala. Entre 2011 e 2017, os clubes sociais do Atlético acumulam prejuízo superior a 4 milhões de reais! A fala não corresponde à realidade.
Mas como afirmei que teríamos sugestões, vamos a elas. A recuperação de uma instituição em crise passa por vários aspectos. Antes de qualquer coisa, precisa abandonar o que vinha fazendo e passar a fazer diferente, mudar a cultura. Para isso, às vezes é preciso que algumas pessoas deixem a organização pois não estão mais contribuindo. Outras precisam entrar, com novas ideias, práticas e pensamentos. No caso do Atlético, passou da hora de renovação. O futebol mudou muito – dentro e fora de campo. O que era uma prática amadora agora é um negócio que tem previsão de movimentar 3 trilhões de dólares em 2021. Isso não é para amadores! É preciso profissionalizar.
Mudada a cultura, a recuperação passa por algo óbvio: reduzir custos e aumentar receitas. Se o Atlético aumentou consideravelmente suas receitas nos últimos anos (muito em função do aumento das quotas de TV), os custos aumentaram no mesmo ritmo. Por exemplo, as receitas de transmissão passaram de 71 milhões em 2013 para 129 milhões em 2016 e 171 milhões em 2017 – sabendo que neste último ano houve antecipação de receitas e “bônus” para renovação do contrato. Mas, no mesmo período, os custos com o futebol passaram de 146 milhões em 2013 para 240 milhões em 2017. E a maior parte deste aumento não está em salários e direitos de imagem. Está nos custos gerais (200% de aumento) e nas atividades com o futebol (93% de aumento). É essencial rever estes custos.
Considerando a redução de custos, a tal “austeridade” deve ser aplicada prioritariamente nos gastos, não nos investimentos. Em outras palavras, é preciso reduzir o que se coloca onde não gera receitas. Se você coloca R$1 em algo que não te traz retorno, é um lugar para rever. Mas se você coloca R$1 onde consegue gerar R$2, aumente tais aplicações. E as receitas no Atlético são geradas com o futebol. Enfim, para reduzir custos, o Galo precisa rever seus custos com pessoal e custos operacionais. Por exemplo, as despesas com pessoal alocadas nos custos operacionais passaram de 4,8 milhões em 2013 para 9,4 milhões em 2017. As despesas com pessoal nos clubes sociais passaram de 3,3 milhões em 2013 para 5 milhões em 2017. Dá para fazer muita economia por aí.
Quanto ao futebol, é investimento. Ali se aplica os recursos porque é dali que vêm as receitas em bilheteria, venda de produtos, transmissão (pay-per-view, por exemplo), venda de atletas etc. É preciso ter muita assertividade nestas decisões. Na última entrevista do Presidente Sette Câmara, ele afirma que foi preciso usar de criatividade e, por isso, houve erros. Não, Presidente! Quando não se tem dinheiro que não podemos ter erros. E sejamos sinceros, os erros na montagem do elenco foram muitos. Por exemplo, temos contado com, em média, 33 atletas no elenco profissional. Por que três times? Como exemplo, Barcelona e Inter de Milão tem 23 atletas em seu elenco profissional. Caso necessário, recorrem à base para suprir emergências. Se passássemos de 33 para 22 atletas, teríamos uma redução substancial nas despesas de salário e direito de imagem e esses recursos poderiam ser direcionados à redução da dívida ou, melhor, à contratação de jogadores melhor qualificados.
Falando no endividamento, o passivo (circulante + não-circulante) aumenta em 14,7% entre 2013 e 2017. Considerando a inflação no período, só ficamos “enxugando gelo”, pagando juros e mudando de um credor para outro. Mas a dívida continuou por lá. Inclusive os efeitos do PROFUT e os recursos da venda do Bernard em nada adiantaram para diminuir o endividamento. No último ano, foram 33 milhões em encargos financeiros, 75% maior que o realizado em 2013. De novo: e o dever de casa? Não deveria estar sendo realizado antes?
Outro ponto a ser abordado sobre o endividamento diz respeito ao perfil da dívida. A maior parte da dívida do Atlético foi equacionada com o PROFUT. Do que resta, 197 milhões são dívidas de “empréstimos e financiamentos”. Deste valor, 123,6 milhões são vinculados a instituições ligadas ao ex-presidente Ricardo Guimarães. É uma dívida a ser paga, como qualquer outra. O que pode ser feito é a renegociação para alongar os prazos para pagamento, dividir em valores menores mas com maior quantidade de parcelas. Isso dá liquidez, capacidade de pagamento, fôlego.
Ainda é preciso gerar receitas. Nesse ponto, o Atlético não teve qualquer iniciativa para isso. É passivo, reativo, espera para ver o que acontece... O aumento das receitas do Galo aconteceu por obra do destino: a quotas de TV aumentaram, algumas vendas de atletas, patrocínios... O Galo na veia “patina”. Aumenta o número de associados mas não há aumento considerável nas receitas. A bilheteria caiu drasticamente no último ano e deve ser ainda pior em 2018. E marketing... existe no Atlético?
Bilheteria, sócio-torcedor, pay-per-view só gera mais receitas se tiver time competitivo. É preciso, então, buscar outras receitas. Como?
O conceito de matchday amplia a possibilidade de gerar receitas nos dias de jogos. Permite a venda de alimentos, bebidas, produtos, serviços e experiências antes, durante e depois do jogo. Os clubes brasileiros pouco ou nada fazem para isso. Deveriam buscar as experiências dos esportes americanos. É diferente mas pode trazer aprendizados e inspirações. Uma das coisas que já podemos perceber é que a Arena Independência não é o local mais adequado para buscar a ampliação das receitas. E não é apenas pela limitação de público nas arquibancadas. É, essencialmente, por falta de espaço. O Mineirão permite oferecer diversas atividades na esplanada antes e depois do jogo. Podem ser criadas atividades para crianças, shows, venda de alimentação e bebidas, comercialização de produtos e serviços do Galo... Não é apenas futebol, é um evento completo e complexo. É necessário ter ousadia e pensar grande.
Continuando com a busca de receitas, comprar produtos ou serviços do Galo é uma experiência traumática. Não se encontra quase nada. Falta variedade e, do pouco que tem, faltam opções de tamanho, cor ou peças femininas ou para crianças. O licenciamento de marca é algo elementar, básico. A Turma da Mônica gera bilhões em receitas de produtos licenciados. Quanto o Atlético gera? Praticamente nada. Falta de vontade, iniciativa ou competência?
O programa Galo na Veia deveria ser uma gigantesca fonte de recursos. Se falamos em milhões de torcedores, não dá para comemorar ter cem mil sócios. Mas se nos concentrarmos nestes, quantas empresas tem o cadastro de mais de 100.000 pessoas fieis e dispostas a comprar seus produtos e serviços? Mas o que é feito para o relacionamento com esse público? Mais uma vez, nada. Reduzir o programa de sócio-torcedor à venda de ingressos para jogos e algumas poucas (e raramente interessantes) experiências é a mais absoluta falta visão do negócio. E o resultado financeiro é compatível com a falta de ambição e ousadia: 16 milhões com um programa destes é insignificante. Como mudar: deixar de pensar só em ingresso para jogo e passar a ter um programa que permita ao associado VIVER o Atlético e ganhar, até mesmo, dinheiro com isso. É possível? Basta procurar outras experiências e verá que sim.
Por fim, parece que a disposição de fazer o mais fácil pode levar a mais uma decisão equivocada. O negócio do Atlético é entretenimento, futebol, não é shopping. Mas isso não quer dizer que desfazer de um magnífico patrimônio para reduzir endividamento vá resolver os problemas do Clube. O Diamond Mall gera aproximadamente 10 milhões de reais anuais para o Atlético. Pouco. E não há apego em mantê-lo. Mas... supondo que o Atlético venda sua parcela de 49,9% do Shopping por valor igual ao definido na venda dos 50,1% iniciais, teremos uma receita aproximada de 250 milhões. Se todo o valor for aplicado para reduzir dívidas, não chega a 50% do endividamento do Galo. O restante estaria no PROFUT, mas continua a existir, inclusive com os juros. Ou seja, melhora mas não resolve o problema. Supondo que esta seja a decisão, que venha acompanhada de medidas de gestão adequadas ao que o Atlético necessita: transparência, profissionalização, normas internas que impeçam novo endividamento.
A crise está instalada no Atlético e só sairá de lá quando Diretoria e Torcida estiverem juntas. A Massa está disposta a colaborar mas a Diretoria precisa buscar a aproximação, melhorar o relacionamento, aceitar críticas e sugestões, ser transparente nas comunicações, ter um estatuto modernizado, democrático e participativo, e, especialmente, pensar no Galo com a grandeza que a Torcida o reconhece.
@denilsonrocha / @falagalo13

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